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Administração Pública
e Política
Emílio
Ibrahim
Administração Pública
e Política Emílio Ibrahim Pretender que a Administração
Pública deve manter-se a uma cautelosa distância da
Política, como forma de preservar ou incrementar sua eficiência,
opondo os dois conceitos, constitui verdadeira contradição
em seus próprios termos.
A Administração Pública
apresenta natureza especial e peculiaridades em tal nível,
que difere de qualquer outro tipo de atividade, e sua complexidade
dificilmente é compreendida fora dela. Em termos gerais, três
aspectos complementares a extremam das demais instituições
e trabalhos administrativos: largueza de objetivo, impacto e
consideração; responsabilidade pública; caráter
político.
O conceito de Política é
multifacetário, abrangendo a doutrina do direito e da
moral, a teoria do Estado, a arte ou a ciência de governar,
e, impropriamente, o estudo dos comportamentos intersubjetivos. Em
boa parte, o traço comum a esses conceitos é a sua
abrangência, em relação aos diversos aspectos
que constituem o bem supremo para o cidadão, considerado
como membro de uma comunidade.
É habitual a crítica à
ineficiência governamental, em contraste com a eficiência
da empresa privada, atribuindo-se esse resultado, em boa parte, à
interferência política na área. A questão
está mal colocada, e compara indevidamente instituições
que têm objetivos diversos.
A Administração Pública
tende a ser menos eficiente precisamente em virtude de sua
natureza pública. Considerando-se, porém, que o
Governo, em tese, age consoante o interesse público
emergente, e sob essa perspectiva, o efeito final é torná-lo
mais eficiente em termos de seu objetivo fundamental.
Numa sociedade pluralista, o número
de partes interessadas é grande demais para que se possam
otimizar todas as áreas. Salvo aquelas onde esse resultado é
essencial, em todas as demais - e em um sistema político são
sempre muitas - busca-se o suficiente, ou seja, a solução
que um número suficiente de partes interessadas possa
aceitar. Busca-se a solução que aplacará a
oposição, mas não a solução ótima
que geraria apoio, e isto até por imperativo das limitações
orçamentárias. Não é à toa que
a política é conhecida como a "arte do possível"
e não a arte do desejável (Administração
em Tempos Turbulentos, P. D. Drucker, pág. 190).
A melhoria dos resultados
produzidos pela Administração Pública não
será obtida a partir do inviável afastamento do
fator político de sua concepção,
inarredavelmente vinculado a seus objetivos. Tão pouco
exclusivamente critérios de aprimoramento de sua tecnologia
poderão contribuir positivamente para o seu
desenvolvimento.
Na verdade, neste caso, a
tecnologia produzirá resultados apreciáveis apenas
quando as tarefas forem claras e estreitamente definidas, não
transcendendo à rotina. A lógica tecnocrática
se aplica com propriedade a objetivos operacionais bem definidos e
critérios limitados. A eficiência, como ideal
operacional, presume que os objetivos estão estabelecidos e
que os principais métodos e recursos para realizá-los
estão disponíveis. A questão, pois, seria
apenas a de unir meios disponíveis com fins conhecidos.
Precisamente o que constitui rotina e que se distingue da decisão
crítica, que caracteriza a Administração Pública,
e que envolve basicamente estabelecer prioridades e criar os meios
necessários para alcançar os objetivos fixados
(Selznick, A Liderança na Administração, pág.
3, 63, 116). A forçosa conseqüência é que
essa atuação mecânica e regrada pelas técnicas
científicas de observação e experiência,
isoladamente, na conjuntura atual, e especialmente em nosso País,
se mostrará mais avançada e eficaz apenas em quadros
estáticos, ou em níveis inferiores da administração.
A lógica da eficiência
vai perdendo terreno à medida que se aproxima do ápice
da pirâmide. Os problemas neste nível resistem mais
ao ataque normal dos peritos.
Metáforas mecânicas -
a Organização comparada a uma máquina de
produção homogênea - sugerem uma ênfase
especial na organização pura e simples e nas técnicas
eficientes de administracão. É provável que
essas ênfases inabilitem o analista para observar o
relacionamento entre política e administração,
resultando daí que a verdadeira experiência em
liderança organizacional e em decisões criticas com
freqüência passa despercebida (Selznick, ibidem). De
uma linha de comando depende, em qualquer campo de atividade
humana, o sucesso dos objetivos a serem atingidos, e posso
proclamar, com segurança, que o resultado obtido pelo
administrador público decorrerá, substancialmente,
da prudente e imparcial seleção de valores para os
cargos de direção, reservados a seus colaboradores.
Nestas circunstâncias, a
natureza e a qualidade da liderança, como técnica de
governo, constitui a mais sedutora alternativa para o
aprimoramento de resultados. A necessidade de tirocínio político
é essencial e abarca uma extensa gama de problemas
especiais. Indo além da eficiência, a liderança
transcende à engenharia humana, ao menos na forma em que
aquela é usualmente entendida. O administrador público
deve ter compreensão econômica, mas não deve
funcionar como um economista; deve ter compreensão legal,
mas não deve funcionar como um advogado; deve ter compreensão
de negócios, mas não deve operar como um homem de
negócios; deve ter compreensão social, mas não
deve operar como um sociólogo; deve possuir conhecimentos
de pesquisa, mas não deve proceder como um cientista.
Necessita aprender tais matérias de forma genérica,
a fim de entender a política: seu êxito ou malogro
como administrador depende de como ele funciona como político.
No seu melhor sentido, política são as habilitações
de um estadista (Ludwig Von Mises, Yale University).
À parte, merece também
as indigitadas reivindicações "políticas"
uma palavra de compreensão. A instalação de
bicas de água no subúrbio, pequenas extensões
de rede de energia elétrica ou gás, instalação
de sedes regionais de serviços públicos, em
determinados municípios, utilidades nem sempre
correlacionadas com o custo-benefício, ou com a própria
eficiência do serviço, solicitados por políticos
em favor de seus eleitores servem de exemplo. Desde que dosados,
tais pedidos circunscrevem-se perfeitamente dentro das finalidades
da Administração Pública, atendendo ao
profundo sentido social que em geral emana dessas reivindicações.
Em minha vida pública,
iniciada na firme e segura companhia do Prefeito João
Carlos Vital, ilustre exemplo de líder e administrador público,
ao longo de trinta anos, sempre dediquei especial atenção
ao político, até como método de trabalho. Em
sua grande maioria, eles representam sempre justas aspirações
de áreas específicas da comunidade e, em particular,
das populações de baixa renda, anseios aos quais
dificilmente o administrador público e, muito menos, a
tecnologia, terão acesso sem o seu valioso auxílio.
E observe-se que esses anelos individuais, ou de pequenos grupos
locais, como regra, têm custo reduzido, e são tão
legítimos e essenciais para os seus beneficiários,
em proporção, quanto as grandes obras que visam a
beneficiar a Cidade, ou o Estado, como um todo.
Escrevi, em outra oportunidade, que
o que se pode postular do administrador público é a
dimensão humana, a redução do exercício
teórico à consciência plena de que a sua atuação
influirá na vida de seres humanos, com sentimentos, ambições,
frustrações e necessidades comuns. A atuação
da Administração Pública, diretamente sobre
problemas sociais, terá sempre seus reflexos
potencializados, nos setores econômicos e industriais,
devendo operar, pois, como critério das prioridades a serem
estabelecidas, evitando-se os projetos altamente sofisticados, de
índole tecnocrática, quando alienados do contexto
humano e da presente verdade social (Administração Pública,
Contradições e Objetivos, in Jornal do Brasil de
16.10.80).
Com justa satisfação,
constatei o acerto dessas palavras, na profunda lição
do Papa João Paulo II, a respeito do que é Política,
no seu sentido humano e por isto mesmo verdadeiro:
"Toda a atividade política
nacional e internacional procede do homem e para o homem; caso ela
se separe dessa relação e finalidade, converte-se,
de certo modo, em um fim em si mesma e perde a sua razão de
ser".
Esta, enfim, é a feliz
conjugação da Política, como ciência e
como prática, inerente à Administração
Pública, e justificadora de seus altos ideais e objetivos.
Jornal do Brasil, 30 de abril
de 1981.
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